Vime transcende gerações, fomenta a economia e é solução ambiental na Serra Catarinense
Uma cultura centenária, que transcende gerações, continua fomentando a economia e garantindo o sustento de centenas de famílias na Serra Catarinense. Este é o vime, cuja utilização vai do artesanato às soluções ambientais e que conquista cada vez mais espaço entre uma clientela que valoriza as tradições e prioriza a sustentabilidade no meio ambiente.
Desde o cultivo inicial, o vime tem grande importância em pequenos municípios da região mais fria do Brasil. Um dos lugares onde a cultura ainda está bastante presente é Bocaina do Sul, com pouco menos de quatro mil habitantes e distante 35 quilômetros de Lages.
É lá que Ruan Matias Oliveira trabalha desde criança com vime. Embora existam outras produções na propriedade rural da família, o vime complementa a renda ao longo do ano, o que motiva Ruan a nunca parar com aquilo que sempre fez.
“É uma atividade que eu faço com a família e é responsável por boa parte do sustento da casa. Uma renda que entra praticamente limpa. Eu sempre gostei, desde criança. Fui criado dentro de um cesto de vime. E se Deus quiser, quero continuar aqui, mexendo com isso”.
“A Epagri é quase uma segunda mãe. Ela acompanha, ajuda, vem aqui para ver se precisamos de alguma coisa, oferece apoio para exposições. E onde a gente vai, vai aumentando o consumo do vime e a nossa renda junto”, acrescenta Ruan.
“O vime ainda tem grande importância, especialmente na região do Vale do Canoas, e representa um ganho muito bom para muitas famílias. Então a Epagri está sempre junto dos produtores para preservar a tradição e movimentar a economia”, completa Valberto Henckemaier, extensionista rural da Epagri em Bocaina do Sul.
Artesãos mantêm tradição e vendem arte serrana para a América do Sul
A BR-282 é uma das principais rodovias federais de Santa Catarina e liga Florianópolis a Paraíso, no Extremo-Oeste do Estado, na fronteira com a Argentina. E é exatamente às margens desta importante rota turística e de escoamento de produção que a beleza do vime é apresentada a viajantes da América do Sul.
Na altura do Km 175, na localidade de Areião, em Bocaina do Sul, está localizado o Centro de Comercialização Grupo União do Vime, uma associação que nasceu com 28 e hoje já conta com 350 famílias que trabalham com madeira, sabonetes artesanais e, principalmente, o vime.
“Sempre temos uma boa expectativa de receber os clientes. As lojas e os mercados nos procuram bastante pedindo cestas para montar kits. Também vendemos muito para viajantes de todos os lugares que passam por aqui a passeio ou a trabalho. Isso é muito gratificante”, diz Franscieli Capistrano, representante da associação.
Em Lages, o servidor público Antônio Gilmar de Liz Rosa, morador do Bairro São Pedro, também tem o artesanato de vime não apenas como complemento de renda, mas como fonte de uma felicidade que ele alimenta desde criança. “Estou com 50 anos de idade, dos quais, 40 dedicados ao vime. Embora eu tenha outra profissão, não consigo ficar sem trabalhar com o vime, porque o vime é vida, é saúde e faz parte do meu dia a dia. Eu não me imagino parando com o artesanato. O vime me deu uma identidade e conseguiu fazer com que eu permanecesse na atividade, vendendo esta essência serrana, esta essência lageana”.
Vime é apresentado como solução ambiental para o saneamento
E se o vime é bom para quem cultiva e para quem produz artesanato, é igualmente bom para o meio ambiente. Em Lages, uma parceria entre a Epagri, o Centro de Ciências Agroveterinárias da Universidade do Estado de Santa Catarina (CAV Udesc) e a prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Água e Saneamento (Semasa), resulta em um projeto que tem obtido bons resultados e já serve de exemplo para outros lugares.
Na Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) do Bairro Araucária, uma plantação de vime produz grande quantidade de biomassa, o que contribui significativamente para os processos biológicos e naturais que ocorrem no tratamento e na remoção de poluentes do esgoto.
“Temos utilizado o vime com excelentes resultados, fechando o ciclo e trazendo um grande impacto na economia circular e nos objetivos do desenvolvimento sustentável. É o vime gerando importantes projetos, com alguns municípios já incorporando estas soluções no tratamento do seu esgoto urbano e rural”, explica o engenheiro sanitarista e ambiental Eduardo Bello Rodrigues, professor do CAV Udesc.
“O saneamento rural, hoje, é um problema, porque estruturas convencionais são viáveis para grandes habitações, grandes volumes, municípios com mais de quatro ou cinco mil habitantes. Para populações menores, até mesmo propriedades individuais, este sistema não é o mais eficiente. Assim, entram as soluções baseadas na natureza. Neste caso, o vime, que é uma das espécies mais usadas no mundo para este serviço, por ser extremamente eficiente e capaz de estimular bactérias e microorganismos na decomposição e purificação dos lodos”, conclui o engenheiro agrônomo Tássio Dresch Rech, pesquisador na Estação Experimental da Epagri em Lages.

Fotos: Pablo Gomes/Epagri
Região produz há mais de 50 anos
O vime é um produto obtido de espécies do gênero Salix, da família Salicaceae. São conhecidas cerca de 300 espécies desse gênero, entre árvores e arbustos, espalhadas pela Europa, América do Norte, Ásia e África.
Em Santa Catarina o vime está presente há quase um século, acompanhando principalmente os imigrantes italianos. Introduzido juntamente com a vinicultura, persistiu ao longo do tempo com diversos usos e aplicações, com destaque para a proteção de barrancas de rio, fabrico de canoas, cangas de boi, calçados (tamancos) e artigos trançados de uso doméstico (cestas, balaios, gaiolas, etc.).
É utilizado ainda em paisagismo, fabrico de brinquedos, amarração de vegetais (parreiras e kiwi), bioenergia, fitorremediação (descontaminação de solos e lençóis freáticos), na fitoterapia e na terapia ocupacional.
A partir da década de sessenta do século passado, o incremento da vitivinicultura e o declínio das plantações de vime na serra gaúcha ensejou a comercialização catarinense do vime “in natura”, para suprir as demandas daquela atividade (amarração das plantas de videira e trançados para garrafas, garrafões e cestas de colheita). O vime passou a ter importância econômica, com aumento da área plantada e da produção no vale do Rio Canoas.
O cultivo se concentra hoje na região da Serra Catarinense, nos municípios de Rio Rufino, Bom Retiro, Bocaina do Sul, Urubici, Urupema, Painel e Lages, de onde expandiu-se para outras regiões do estado (Rio dos Cedros e Garuva) e do país. Atualmente, na região Serrana, 1266 famílias se dedicam ao cultivo de 1215 hectares de vime.
A transformação da conjuntura nacional e mundial, com os agricultores saindo da agricultura de subsistência para a economia de mercado, exigiu mudanças na forma de exploração das propriedades.
Nesse ambiente o vime, cujo cultivo pouco depende de recursos externos à propriedade, tornou-se importante fonte de renda e contribuiu para a permanência de significativo número de famílias no campo. A atividade contribui para a manutenção das unidades produtivas, ocupando a mão-de-obra local. Remunera essencialmente os fatores internos de produção (mão-de-obra e recursos naturais).
É pouco mecanizada, a maioria das atividades são executadas manualmente. Não compete com as lavouras tradicionais, desenvolvendo-se em áreas marginais que apresentam restrições ao cultivo.
O processo produtivo do vime é ambientalmente recomendável, pois nele não são usados pesticidas (inseticidas, fungicidas e herbicidas). Além do sistema de produção utilizar o mínimo de insumos externos, recicla nutrientes normalmente indisponíveis aos cultivos convencionais, preserva o solo, melhora a qualidade da água, protege as margens dos rios e está adaptado às condições locais. O volume de artesanato produzido regionalmente é incipiente quando comparado à produção de matéria prima.
Apenas 10% do total colhido são transformados nos municípios produtores, o que confirma a baixa apropriação, pelos agricultores e artesãos, dos recursos gerados pela atividade na região.
É necessário estimular a produção local de artesanato com melhor acabamento, pela introdução de novas técnicas e novos desenhos que atendam o mercado consumidor, mudando a realidade atual, onde 90% da produção é comercializada na forma de varas, para outras regiões do Estado e do país. Cabe salientar que no processo de transformação artesanal, 800 a 1000 quilos de varas secas são suficientes para uma pessoa trabalhar o ano inteiro na confecção de peças.
A produção anual gera ocupação para 6.000 a 7.500 pessoas, trabalhando em tempo integral, somente no artesanato, sem considerar o restante da cadeia produtiva.
A comercialização, inicialmente realizada diretamente entre produtores e consumidores, foi sendo paulatinamente assumida por intermediários, que detêm estoques e regulam o mercado, o que provoca oscilações dos preços. Os intermediários visitam isoladamente os produtores e compram o produto a granel, sem classificação e sem tipificação – os produtores desconhecem as exigências de qualidade requeridas pelos artesãos.
Nessa forma de comercialização o produtor é prejudicado, os preços recebidos sofrem grandes flutuações e é ínfimo em relação ao que é cobrado dos artesãos.
Os produtos do artesanato local também são pouco competitivos, suas peças geralmente não possuem as qualidades desejáveis e o design deixa a desejar.
À medida que a atividade ganhou importância regional, produtores e suas lideranças sentiram a necessidade de melhorar o sistema produtivo e agregar valor ao produto pela transformação artesanal local.
Solicitada, a Epagri, que até então não desenvolvia qualquer ação nesta atividade, reconhecendo sua importância social, econômica e ambiental, aliou-se aos produtores para seu planejamento conjunto.
Foram contratadas duas consultoras, nas áreas de agronomia e artesanato, ao tempo em que foi elaborado o “sistema de produção do vime”, necessário à inclusão da cultura como atividade financiável no sistema nacional de credito rural.
A consultoria evidenciou a importância e a dimensão da atividade e apontou para a necessidade de trabalhos de pesquisa e extensão rural, visando resolver os problemas resultantes da baixa apropriação, pelos agricultores e artesãos, dos recursos gerados pela atividade na região.
Como principais entraves foram enumerados:
• Baixa agregação de valor à matéria prima;
• Dificuldade de acesso ao mercado consumidor;
• Pouca tradição em trabalhos associativos;
• Dificuldade de incorporação de novas técnicas de produção e transformação artesanal.
Outras instituições públicas e privadas, além da sociedade civil, demonstraram interesse em formar parcerias, oportunidade em que foi criado o Projeto de Desenvolvimento da Cadeia Produtiva do Vime na Serra Catarinense. Fazem parte desse projeto:
• o Serviço Nacional de Apoio a Micro e Pequena Empresa (Sebrae-SC);
• a Agência de Desenvolvimento da Serra Catarinense (Ageserra);
• a Associação de Produtores de Vime de Rio Rufino (Aprovime);
• a Cooperativa de Crédito Rural de Rio Rufino (Sicoob/SC - Cediunião);
• a Cooperativa de Artesanato de Vime e Outros Produtos do Planalto Catarinense (Cooperart) e
• a Associação de Micro e Pequenos Empresários de Lages (AMPE).
Foi proposta a construção de uma Unidade de Capacitação, nas dependências do Cetrejo – Centro de Treinamentos da Epagri de São Joaquim -, para estimular o aprimoramento das áreas de produção de matéria-prima e da produção artesanal, pela incorporação de novas técnicas que permitam competição de mercado. A Unidade facilitaria a busca de conhecimento pelos agricultores, tendo em vista que hoje não existe uma estrutura regional para suprir esta demanda.
Individualmente, os agricultores não possuem condições financeiras para o aperfeiçoamento em outros locais. No projeto estão previstas ações em áreas importantes como pesquisa e extensão aplicadas ao cultivo, capacitação para o trabalho artesanal, gerenciamento dos empreendimentos, além de assessoramento na organização e na comercialização dos produtores de vime.
À par de várias ações desenvolvidas nas áreas de comercialização e de capacitação cumpre lembrar que, na área de pesquisa, foram instalados ensaios de densidade e espaçamento de plantio, durante três anos, além de uma coleção de cultivares e espécies oriundas do país e do exterior (Argentina, Chile e paises da Europa). Um amplo trabalho de diagnóstico de solos e nutrientes foi realizado durante quatro anos. Os dados estão em fase de análise.
Fonte: Epagri


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