Segundo traje antecipa a essência do vestido oficial da Festa Nacional do Pinhão
Resgatando a ancestralidade, o traje reforça a conexão com as origens. O chiripá surge como símbolo de um tempo em que o fazer manual era essencial. É justamente essa essência que conduz toda a narrativa da coleção deste ano
Muito além de um traje, a segunda produção da realeza da Festa Nacional do Pinhão surge como um manifesto sobre tempo, ancestralidade e o valor do feito à mão. As criações foram apresentadas neste sábado (4 de abril), durante o evento de abertura oficial da colheita do pinhão, no Mercado Público Municipal Osvaldo Uncini.
Os trajes, confeccionados pelo La Unica Ateliê, de Lages, e utilizados pela Rainha Maria Júlia Branco da Silveira e pelas Princesas Maria Luisa Furtado Boeno e Emilie da Silva Pereira, partem de uma releitura do chiripá, peça tradicional da cultura gaúcha que antecede a bombacha.
A concepção inicial foi do executivo de comunicação da Prefeitura de Lages, Diogo Schimitz, e ganhou forma a partir do olhar criativo da estilista Ana Lopes, que transformou a referência histórica em uma composição feminina, sofisticada e contemporânea. “O look não apenas veste, ele narra uma história e uma cultura”, destaca a estilista.
Para o executivo de comunicação, “o desafio foi pegar algo que poderia ser visto como rústico e elevar isso à altura da realeza”.
A prefeita Carmen Zanotto ressalta que a proposta vai além da estética. “Esses trajes representam a nossa identidade, valorizam a cultura serrana e mostram como tradição e inovação podem caminhar juntas. É uma forma de contar a nossa história com sensibilidade e orgulho”, afirma.
Do passado ao presente: a força do chiripa
Resgatando a ancestralidade, o traje reforça a conexão com as origens. O chiripá surge como símbolo de um tempo em que o fazer manual era essencial. É justamente essa essência que conduz toda a narrativa da coleção deste ano.
Confeccionado em lã nobre com fios de lurex, o tecido foi escolhido para equilibrar tradição e brilho, trazendo sofisticação sem perder a identidade cultural. A peça é complementada por um casaco inspirado no jaleco gaúcho e botas de cano alto em tom de pinhão, compondo um visual que une história e imponência.
O feito à mão como protagonista
Se existe um elemento central neste traje, é o trabalho manual. Cada detalhe carrega tempo, técnica e intenção: flores produzidas a partir da falha do pinhão, geralmente descartada, mas aqui transformada em arte; rendas tingidas manualmente, criando um efeito degradê único; franjas de pérolas aplicadas uma a uma; além de pinhas e outros elementos construídos artesanalmente.
O processo exigiu testes, especialmente na elaboração das flores, até alcançar o resultado ideal. “Mais do que estética, a escolha pelo manual surge como contraponto ao cenário atual dominado pela produção acelerada e digital”, explica a estilista Ana Lopes.
Memória e continuidade
O traje também carrega um significado afetivo. A técnica das flores feitas com a falha do pinhão já havia sido utilizada em 2020, em criações assinadas por Berenice Lopes Omizzolo, a dona Bery, mãe da estilista Ana. Agora, o elemento retorna como um resgate simbólico, reforçando a transmissão de saberes entre gerações.
A equipe, formada por Berenice Lopes Omizzolo, Dilma Guiorz, Rosângela Luís, Matheus Alvez e Kiara Leal Fogaça, é parte fundamental desse processo. “Quando eu trago uma ideia, elas não dizem que não dá. Elas encontram um jeito de fazer acontecer”, destaca Ana Lopes.
Símbolos que contam a história da Festa do Pinhão
Os acessórios ampliam ainda mais a narrativa. O camafeu, tradicionalmente utilizado por prendas, ganha releitura contemporânea e traz, em seu interior, a pintura manual da gralha-azul, ave símbolo da região e responsável pela disseminação das sementes da araucária.
A escolha não é por acaso: nesta edição, a gralha-azul é homenageada como representação da continuidade da cultura e da vida. As coroas, utilizadas desde o concurso, também reforçam essa simbologia ao incorporar elementos que remetem à pinha e à araucária.
Quando o público se reconhece
Durante a apresentação dos croquis, a prefeita Carmen Zanotto demonstrou encantamento com o resultado, reação que, para a estilista, traduz o objetivo final do projeto. “Mais do que criar algo bonito, queremos que o público olhe e sinta que aquilo representa a sua própria história”, afirma a prefeita.
Mais do que vestir, sustentar
Vestir a realeza da Festa do Pinhão vai além da estética. Existe uma construção conjunta entre criação e identidade. “As meninas participam, opinam, se reconhecem no que estão usando. Porque não adianta ser o vestido mais bonito do mundo se quem veste não sustenta”, acrescenta a estilista Ana Lopes.
A Rainha Maria Júlia e as Princesas Maria Luíza e Emilie da Silva carregam não apenas os trajes, mas o significado de uma festa que atravessa gerações.
Um caminho até o vestido oficial
O segundo traje não se encerra em si. Ele integra uma construção maior. Cada elemento apresentado, do feito à mão aos símbolos culturais, funciona como um prenúncio do vestido oficial, que promete reunir, de forma ainda mais intensa, todos esses significados.
Em um tempo marcado pela produção imediata, a realeza da Festa Nacional do Pinhão aposta no oposto: no tempo, no cuidado e na valorização da história.
A 36ª Festa Nacional do Pinhão está programada de 22 de maio a 7 de junho, em Lages.
Fotos: Sabrina Rodrigues


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