Pioneira da educação infantil em Lages, educadora transforma cinco anos de luta contra a doença em uma obra sobre fé, emoções e a capacidade humana de recomeçar
Ao longo de mais de trinta anos, Valdirene da Silva Vieira, carinhosamente chamada de professora Val, marcou seu nome na história do ensino infantil de Lages como uma educadora engajada, dinâmica e muito criativa.
Em sua marcante carreira, ela desempenhou as funções de cuidadora, docente, diretora e Secretária Municipal de Educação, vivenciando de perto a transição das antigas creches de caráter assistencial para instituições integradas à educação básica.
Logo após se aposentar em 2021, acreditando ter concluído sua jornada profissional, recebeu o diagnóstico da Síndrome de Guillain-Barré, o que mudou radicalmente sua rotina.
Atualmente, cinco anos depois e convivendo com sequelas, ela transforma esse período de dor, resiliência e fé em uma lição de vida para educadores e o público em geral com a publicação de O Corpo que Costura a Alma – Entre Memórias e Silêncios.
Com o suporte da Associação Lageana de Escritores (Ale) e revisão assinada por Alexandro Molleri Reis e pela presidente Maria Waltair Carvalho, o livro já foi disponibilizado em formato digital para a Secretaria Municipal da Educação, permitindo o acesso gratuito a professores e leitores interessados em sua emocionante narrativa. O evento de lançamento oficial ocorrerá no Casarão Juca Antunes, em meados de agosto, em um encontro acolhedor direcionado a convidados e amigos.
A obra vai muito além do relato sobre uma patologia, abordando temas fundamentais como o envelhecimento, o protagonismo feminino, a educação, a essência humana e o poder de reinvenção pessoal. Quem desejar acessar a versão digital do livro pode encontrar o endereço eletrônico disponível diretamente em seu perfil na rede social Instagram.
Pioneira da educação infantil
A dedicação da professora Valdirene da Silva Vieira à área começou aos dezenove anos no Bairro Caça e Tiro, atuando em uma unidade voltada ao atendimento infantil em um período fortemente marcado pela filantropia.
Ela relata que a cidade dispunha de poucas creches municipais na época, criadas essencialmente pelo poder público para fornecer alimentação e combater as altas taxas de mortalidade e desnutrição infantil.
“Até então o intuito da educação infantil era somente cuidar. As professoras tinham o papel de cuidadoras e eram chamadas de monitoras”, recorda.
Desse momento em diante, Val tornou-se uma das precursoras do ensino voltado à primeira infância em Lages, unindo sua história pessoal à modernização do setor e à mobilização das professoras por melhores salários e prestígio profissional.
“Se a educação infantil era só cuidar em meados da década de oitenta, e hoje em dia faz parte da educação básica, eu fiz parte dessa história, com muito orgulho”, destaca com satisfação.
A transformação da educação
Demonstrando grande entusiasmo pelo trabalho com as faixas etárias iniciais, Val idealizou e coordenou ações integradas com a comunidade local, com destaque para a implantação de hortas escolares.
A iniciativa revitalizou os pátios das instituições de ensino por meio do uso de flores, hortaliças e pneus pintados, servindo de inspiração direta para as famílias dos estudantes.
“Começamos lá em meados dos anos dois mil. Aos poucos fomos mostrando, orientando e o projeto fortaleceu. Hoje, praticamente todas as unidades de ensino aderem ao projeto das hortas”, acrescenta.
Na mesma época, a professora também organizou um grupo de contação de histórias que percorria os colégios da região levando literatura e encantamento para o público infantil.
“Sempre fui apaixonada pelas crianças pequenas e ainda sou. Porque professora não se aposenta, a gente faz parte de todo um contexto de educar e isso nunca sai da gente Tenho uma trajetória firme, coesa e linda dentro da contação de história, com iniciação à literatura infantil. Então, se eu morresse hoje, já morreria feliz porque tenho certeza que deixei muito de mim. Gosto daquele ditado que diz: por onde passamos, deixamos um pedacinho da gente e levamos um pedacinho do outro. Tenho certeza que deixei muitos pedacinhos por aí. De alunos que passaram por mim, pequenininhos, e de colegas de trabalho, juntos em uma luta muito forte dentro da formação de professores e valorização da carreira”.
Vinda da rede pública de ensino, Val construiu seu espaço na profissão de forma gradual, representando um importante símbolo de liderança feminina e negra oriunda da periferia, criada em uma família humilde de pais analfabetos e muitos irmãos.
Sua trajetória englobou desde o serviço em berçários até o atendimento de crianças de zero a cinco anos, expandindo-se posteriormente para a gestão escolar e culminando em seu convite para assumir o cargo de Secretária Municipal da Educação em 2017.
A Síndrome de Guillain-Barré
No final de 2020, reunindo o tempo exigido e a idade para se aposentar, Val considerou oportuno encerrar suas atividades devido ao visível desgaste físico e mental decorrente de uma rotina profissional intensa. Seus dias iniciavam muito cedo e as noites terminavam tarde, com finais de semana preenchidos por afazeres domésticos e familiares.
“Estava me preparando para me aposentar e iniciar outros ciclos, pois enquanto há vida, há esperança e muita força. Sempre gostei da convivência com as pessoas”, relata.
Durante as festividades de fim de ano, marcadas pelo isolamento decorrente da pandemia da Covid-19, ela permaneceu recolhida com seus familiares.
Contudo, em janeiro de 2021, uma grave infecção causada por rotavírus debilitou gravemente sua saúde, resultando em um despertar inesperado em um sábado pela manhã, com quadro de tetraplegia total.
O diagnóstico confirmou a Síndrome de Guillain-Barré, uma patologia autoimune rara em que o sistema imunológico passa a atacar erroneamente as estruturas neuromotoras do próprio organismo.
“Tudo onde você possa imaginar que tenha músculo responsável pelo movimento paralisou, de um jeito que eu conseguia mexer só os olhos, mas as minhas faculdades mentais estavam perfeitas. Eu via, sentia tudo, estava acompanhando tudo, e não conseguia mexer um dedo”, reconta.
Na segunda-feira subsequente ao início dos sintomas, Val já se encontrava na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), sob ventilação mecânica. “É muito parecido com aqueles filmes de terror, com aquelas pessoas que ficam presas dentro do próprio corpo, vendo, ouvindo e sentindo tudo. O Guillain-Barré paralisa até mesmo a musculatura do pulmão e a pessoa para de respirar. Eu, sem entender o que estava acontecendo, graças a Deus fui diagnosticada muito rápido. Fiquei mais de 15 dias entubada, em uma luta terrível pela vida. E, mesmo entubada, estava consciente, observando tudo ao meu redor. Não sei dizer de onde tirei forças para lutar pela vida, pois em cada segundo eu precisava reagir”, recorda com emoção.
Em razão da sobrecarga nos hospitais causada pelo coronavírus, o corpo médico orientou que a família montasse uma estrutura de home care residencial para mitigar riscos de reinfecção. Com o suporte constante de enfermeiros, fonoaudiólogos e fisioterapeutas, o tratamento prosseguiu em casa.
“Eu era um corpo em cima de uma cama, inerte e totalmente dependente. Não consigo descrever em palavras o que foi isso, porque até então eu estava na luta, activa e forte, e de repente me vejo numa cama sem movimentos e sem poder falar”, descreve.
O ano inicial foi dedicado à estabilização clínica, seguido por mais doze meses utilizando cadeira de rodas. “Minha vida era estar na cama, olhando para o teto e as pessoas que cuidavam de mim. Foi aí que precisei entrar para dentro de si. Foi um encontro muito difícil, eu com meus pensamentos. Sempre fui muito forte, nunca fui de chorar, mas neste período chorei muito, de desespero e algumas vezes até pedi pela morte, um choro tão triste e profundo que eu disse à minha filha que queria morrer. Não conseguia ver minha vida ali, deitada em uma cama, dependendo de tudo e de todos. Usei fraldas e precisei de ajuda até mesmo para fazer minhas necessidades básicas. Para uma pessoa que sempre cuidou de si e dos outros, é algo muito difícil. Não tinha o que me consolasse. Mas aos poucos fui refletindo. Não entendia porque Deus estaria me castigando. E logo quando tinha me aposentado fazia somente dois meses. Questionava, que Deus era esse? Eu precisava encontrar uma resposta”.
Buscando compreender sua condição, solicitou à filha materiais de estudo sobre diferentes crenças, como o hinduísmo, protestantismo e judaísmo. “Tentei olhar pra todas e tentar entender o que era esse Deus que todos cultuavam, respeitavam e amavam. Descobri que, segundo o espiritismo, a gente escolhe antes de nascer o que você quer sofrer e passar para ter uma evolução. Foi quando eu entendi que, de repente, eu mesma tinha escolhido aquilo pra mim para ter um degrau a mais na minha evolução enquanto ser humano. A partir daí comecei a enfrentar a doença de outra forma. Por meio dos estudos das religiões, percebi que tudo que passa na nossa vida não é culpa de Deus, mas nós mesmos procuramos. Levantei a cabeça e enfrentei tudo com dignidade, testando todos os meus limites, mesmo que não dessem certo, não podia dizer que não tentei, pois faz parte da minha trajetória de vida. É um compromisso comigo mesma”.
A educadora passou a registrar o passo a passo de sua reabilitação nas redes digitais, funcionando como uma prestação de contas aos amigos e conhecidos. “Era uma forma de dar respostas às pessoas que se preocupavam comigo.
Isso foi impulsionando e eu buscava cada vez mais ferramentas. Não tinha pretensão de escrever o livro, mas era muito material interessante, de quase um ano se reabilitando e outro ano na cadeira de rodas, tudo documentado e registrado, além de muitas leituras e pesquisas. Comecei a dar valor às pequenas vitórias, desde o ficar em pé, dar o primeiro passo, pegar uma colher e me alimentar.
São pequenas conquistas todos os dias e entendi o quanto nosso corpo é fantástico. Antes da doença chegar, ele dá sinais e a gente não ouve. Então, cada movimento que voltava, eu ficava duas a três semanas com muita dor, pois meus músculos estavam se regenerando. Me emocionei com o meu primeiro banho, depois de quatro meses em banho de leito.
Sentir a água caindo no meu corpo não tinha palavras. Chorava muito a cada conquista, pois via a importância de tudo isso. Sentia falta de movimento de pessoas, dos passeios na rua, de carro andando, então me emocionei com o meu primeiro passeio na cadeira de rodas, ver o trânsito, as pessoas circulando pelas ruas. Parecia que tinha nascido novamente, e aprendi a olhar a vida de outra forma”, detalha.
O legado deixado por meio do livro
A elaboração da obra surgiu de forma natural a partir desses registros íntimos, com o intuito de dialogar com profissionais do ensino e leitores dispostos a conhecer seu percurso.
“Esse livro é um sinal de alerta, pois hoje vivemos numa sociedade frenética e não olhamos para dentro de si. Muitas doenças iniciam com carga emocional. E aí, quando não cuidamos das nossas emoções, dos nossos pensamentos, a doença chega violenta. Temos vários casos de câncer e depressão dentro da educação, muitos afastamentos do trabalho por Síndrome de Burnout. O trabalho é necessário, mas por que que o trabalho está adoecendo?”, pondera a autora.
Com tiragem física estritamente limitada e sem fins lucrativos, o foco principal reside na sua distribuição em formato digital, servindo de apoio e reflexão para indivíduos que enfrentam adversidades semelhantes ou buscam entender as complexidades emocionais do sofrimento humano.
Fotos: Fábio Pavan


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