Levantamento da Fiesc aponta que indústrias que exportam produtos de madeira estão entre as mais prejudicadas. Setor é um dos pilares econômicos da região
A entrada em vigor do segundo tarifaço norte-americano, na quarta-feira, 22 de julho de 2026, mantém o setor produtivo de Santa Catarina sob alerta. Estudo da Federação das Indústrias de SC (Fiesc) aponta que o novo regime aduaneiro imposto pelos Estados Unidos desenha um cenário desafiador para o estado, com estimativas de impacto relevante sobre as indústrias exportadoras.
"O impacto projetado para esta nova fase tarifária é similar aos danos que já experimentamos no primeiro tarifaço. A análise mostra que a economia catarinense já deixou de gerar cerca de 7,6 mil empregos formais apenas no primeiro ciclo de tarifas. A expectativa é de que esta segunda leva tenha efeitos muito parecidos, com prejuízo à economia do estado", afirma o presidente da entidade, Gilberto Seleme.
O impacto maior está concentrado em produtos estratégicos para as regiões Serrana, Oeste e Planalto Norte, territórios que já enfrentam grandes desafios ao desenvolvimento.
Na visão de Seleme, o tarifaço é ruim para o Brasil e para Santa Catarina, mas também é ruim para os próprios americanos, que pagarão mais caro pelos produtos importados. “Esse é o argumento que precisa ser explorado com técnica e inteligência.”
Como ficam as tarifas?
A nova estrutura tarifária imposta pelo governo dos Estados Unidos altera as alíquotas para uma tarifa nominal máxima que passará de 50% (no primeiro tarifaço) para 37,5% no regime proposto para julho de 2026.
No entanto, o estudo da Fiesc demonstra que a tarifa efetiva - que reflete o impacto competitivo que a indústria de fato suporta no mercado de destino e também a pauta de exportações de SC - passará de 47,8% no estado no primeiro Tarifaço, para 35,9%.
“Esta aparente redução de alíquotas nominais esconde um cenário adverso: os principais concorrentes internacionais do Brasil passarão a ser beneficiados com tarifas mais baixas. Com isso, a vantagem competitiva dos produtos de SC no mercado americano segue prejudicada”, avalia o economista-chefe da Fiesc, Pablo Bittencourt.
Exportações para os EUA encolheram 38%
Os efeitos práticos das restrições tarifárias já haviam ficado evidentes durante a vigência do primeiro tarifaço (entre agosto de 2025 e fevereiro de 2026). Nesse intervalo, as exportações de Santa Catarina para os Estados Unidos recuaram 38,29%, encolhendo de uma média mensal de US$ 141 milhões para US$ 87 milhões.
Após a Suprema Corte dos EUA invalidar as tarifas em fevereiro, houve uma gradual recuperação das vendas ao mercado norte-americano, impulsionada pela substituição temporária por uma tarifa global menor de 10%.
Contudo, a iminente implantação do novo pacote de sobretaxas adicionais de 25% (sob a Seção 301) ameaça a retomada e deve consolidar a retração das exportações para os Estados Unidos em cerca de 40%.
Impacto na competitividade
A análise da federação destaca que 518 produtos catarinenses exportados aos EUA perderão competitividade do 1º para o 2º tarifaço, enquanto 608 terão ganho de competitividade ao comparar os dois períodos.
“O que nos preocupa é que, a despeito disto, há perda de oportunidades para as indústrias de SC, já que as tarifas efetivas dos concorrentes de outros países enfrentarão alíquotas mais baixas que as brasileiras”, salienta Bittencourt.
O complexo de madeira ilustra bem este cenário: enquanto a madeira perfilada ganha fôlego com melhora de 6,2 pontos percentuais em relação aos competidores, considerando o primeiro tarifaço, portas e molduras de madeira perderão ainda mais espaço, registrando retração de 2,2 p.p. em sua margem competitiva.
Desvantagem de Santa Catarina é maior
Para a Fiesc, o impacto das novas alíquotas norte-americanas penaliza o estado de Santa Catarina com intensidade maior do que a média registrada pelo restante do país.
A assimetria reflete a alta concentração de produtos manufaturados na pauta catarinense, que possuem alta exposição às novas sobretaxas. Enquanto a parcela das exportações brasileiras afetadas pelas tarifas recua de cerca de 33% para 25%, em Santa Catarina ela se mantém praticamente estagnada em elevadíssimos 56%.
Esta disparidade evidencia que a perda de competitividade estadual frente ao mercado global será muito mais profunda e exigirá resiliência extrema dos nossos setores industriais.
Serra tem dois polos com inserção internacional
Segundo a Fiesc, a Serra Catarinense consolidou-se como polo exportador de produtos de base florestal de Santa Catarina, combinando tradição produtiva, disponibilidade de recursos naturais e capacidade de inovação.
Esses fatores explicam a presença de dois polos industriais com inserção internacional na região, madeira e móveis e celulose e papel, setores com cadeias robustas e altamente competitivas no mercado global.
Em 2024, somente o polo de madeira e móveis exportou US$ 381,8 milhões, enquanto o de celulose e papel registrou vendas externas US$ 166,5 milhões, evidenciando a vocação da região para o comércio exterior.
Nem todas as empresas serão afetadas pelo tarifaço, ou operam no mercado americano, mas os números mostram a robustez do setor que depende do mercado externo.
O levantamento, coordenado pelo Observatório Nacional da Indústria e liderado pelo Observatório Fiesc, mapeou polos industriais por mesorregiões brasileiras.
Na mesorregião serrana, o polo de madeira e móveis reúne 485 estabelecimentos e 9,8 mil trabalhadores, que exportam principalmente madeira serrada, painéis de madeira e MDF. Já o polo de celulose e papel concentra 27 empresas que empregam 4,4 mil pessoas, com foco em papel kraft e recipientes de papel.
Com o primeiro tarifaço, a Fiesc estima que Santa Catarina perdeu 7,6 mil postos de trabalho. O mesmo número deve ser reduzido com o novo tarifaço, principalmente na indústria madeireira e na de proteína animal.
Fonte: Fiesc SC
“O tamanho do mercado americano dá aos Estados Unidos uma elevada capacidade de negociação com qualquer parceiro do mundo. Por isso, a Fiesc esperava do governo federal mais empenho diplomático e técnico e menos discurso de soberania.”
“A FIESC e a CNI mantiveram, nos Estados Unidos, esforços intensos de diplomacia empresarial para reverter a recomendação do USTR ao presidente Trump, mas a falta de humildade política do governo federal comprometeu o resultado dessa articulação”
Gilberto Seleme, presidente da Fiesc
Marco Rubio atribui ao governo brasileiro a responsabilidade pela imposição da tarifa
O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, publicou nesta quinta-feira (16) uma mensagem na rede social X atribuindo ao governo brasileiro a responsabilidade pela imposição da tarifa de 25% sobre a maioria dos produtos brasileiros exportados aos EUA.
Na publicação, Rubio afirmou que a medida decorre da falta de negociação "de boa-fé" por parte do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
"Hoje, o presidente Trump orientou o USTR a impor uma tarifa de 25% sobre a maioria das importações brasileiras. Que não haja confusão sobre o motivo: o presidente Lula e seu governo não negociaram com os Estados Unidos de boa-fé. Suas políticas econômicas são ruins para os americanos e ruins para os brasileiros. No último ano, Lula colocou seu próprio ego à frente de fazer um acordo pelo bem-estar do povo brasileiro, e essas tarifas são o preço por isso", escreveu Rubio.
A manifestação reforça o posicionamento da administração do presidente Donald Trump de que a nova tarifa é consequência do fracasso das negociações comerciais entre os dois países. Segundo autoridades norte-americanas, o governo brasileiro não apresentou avanços considerados suficientes nas tratativas conduzidas ao longo do último ano.
Do lado brasileiro, o governo rejeitou as críticas, classificou a tarifa como unilateral e injustificada e informou que recorrerá aos mecanismos previstos na Lei da Reciprocidade Econômica, além de manter a contestação da medida no âmbito internacional
Fonte: RCN online
Foto: Iano Andrade / CNI / Fiesc

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