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Glauco Olinger

O lageano que ensinou o campo a crescer

Com uma maçã colhida em São Joaquim no bolso do paletó, Glauco viajou a Brasília, e a ofereceu ao ministro Delfim Netto. O ministro abriu uma linha de crédito para os fruticultores. Hoje, Santa Catarina responde por mais de 50% da produção nacional

Há figuras que a história guarda não pelo barulho que fizeram, mas pela solidez do que construíram. Glauco Olinger, nascido em 1922 na Coxilha Rica, em Lages, é uma dessas raridades. 

Filho de descendentes de alemães e de uma professora brasileira, cresceu entre tropeiros e gado aprendendo que o campo era seu destino. Formou-se agrônomo, especializou-se em extensão rural e nunca mais separou o saber técnico da missão social de transformar vidas.

Sua obra mais visível foi implantar a extensão rural em Santa Catarina. À frente da Acaresc — hoje Epagri —, a partir de 1957, ele não levou apenas crédito aos agricultores: levou conhecimento. Em vez de dar o peixe, ensinou a pescar. 

Técnicos iam às propriedades, orientavam manejo, organizavam cooperativas. O paternalismo deu lugar à capacitação. A revolução foi silenciosa, mas os frutos apareceram — literalmente.

O exemplo mais emblemático é a maçã catarinense. Na década de 1970, o Brasil importava quase toda a fruta. Com uma maçã colhida em São Joaquim no bolso do paletó, Glauco viajou a Brasília, e a ofereceu ao ministro Delfim Netto. 

O ministro comeu, elogiou — e, ao saber que era brasileira, abriu uma linha de crédito federal. Hoje, Santa Catarina responde por mais de 50% da produção nacional de maçãs. Um feito que nasceu de um gesto simples e de décadas de trabalho sério.

Tive o privilégio de testemunhar parte dessa filosofia em ação. Em 1976, trabalhei no Departamento Agropecuário da Prefeitura de Lages, no final da gestão do prefeito Juarez Furtado e no início, em 1977, da gestão do prefeito Dirceu Carneiro, que elegeu a agropecuária como prioridade estratégica. 

O departamento, dirigido pelo engenheiro agrônomo Mário Sell Duarte, desenvolvia projetos concretos, entre outros: a Patrulha Mecanizada — com mais de 50 tratores agrícolas, dois tratores de esteira e seus implementos —, a horta comunitária, o horto florestal, os Núcleos Agrícolas, a piscicultura, a apicultura, a ovinocultura, a fruticultura, a olericultura e a silvicultura. 

Grande parte dos técnicos vinha da própria Acaresc — profissionais formados na escola de Olinger: ensinar, orientar e criar autonomia.

Recordo com respeito nomes como o veterinário Dorvalino Furtado, a extensionista Maria Ângela Soprano, o agrônomo Vicente Zechine Bueno, o técnico agrícola Elcio Eduardo Pinto e o técnico e professor de apicultura Juarez Orandes da Rocha, discípulo de Helmut Wiese — mestre de renome mundial em apicultura. Todos representaram uma época em que Lages acreditava no planejamento e na valorização do produtor rural.

Em 2025, Glauco Olinger completou 103 anos — e ainda entregava pessoalmente seus livros, dos mais de trinta que escreveu ao longo da vida. Uma vitalidade que não era acaso: praticou esportes até os 89 anos, abandonou açúcar, sal e cigarro quando poucos o faziam, e exercitava a memória antes de dormir. Viveu com propósito e disciplina, provando que seus ensinamentos não eram apenas para o campo — eram para a vida.

Seu legado pulsa em cada pomar de maçã, em cada propriedade que recebeu assistência técnica, no Centro de Ciências Agrárias da UFSC — que ele idealizou. 

Não foi político nem propagandista. Foi servidor público no sentido mais nobre da palavra. Ele demonstrou que nenhuma região cresce de forma consistente sem educação, ciência e planejamento. 

E Lages participou dessa construção. Preservar essa memória é reconhecer que o futuro não nasce do improviso — nasce do trabalho de quem soube plantar conhecimento para colher desenvolvimento.

Como ele mesmo dizia: “Não existe nação que se desenvolveu sem investir em pesquisa básica e aplicada.”

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