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Inter de Lages

Patrick Cruz

A próxima estrela

Vim do futuro, e posso afirmar, como testemunha ocular que sou: foi lindo. E de uma lindura que deixa tudo, tudo mesmo, no chinelo. Nem o lusco-fusco outonal da Coxilha Rica chega perto em termos de boniteza.

Contei, por baixo, sem mentira, uns 80 fiéis, experientes e neófitos, atravessando o campo de joelhos para pagar o débito que contrataram com o além. Nessa microrromaria de máxima felicidade, tenho certeza absoluta de que avistei uns quatro ateus entre os cristãos, tropeçando em tufos de grama e lágrimas, agradecendo a santos e aos céus, para os quais jamais rezaram pela graça alcançada.

A coisa toda pareceu tão milagrosa que, se havia um momento da existência em que se poderia acreditar no sobrenatural, o dia era aquele. Viu-se uma estrela cadente nos confins da galáxia, que desceu, desceu, desceu até cegar todo mundo no estádio por uma fração de segundo. A claridade se dissipou, a estrela sumiu do céu - e reapareceu no peito do massa que vestia vermelho.

Era a estrela do nosso segundo título estadual.

Nesta sexta-feira (27/3), completam-se exatos 60 anos da maior conquista do Internacional de Lages, a taça de campeão catarinense da temporada de 1965. Como o campeonato só terminou em 1966, a efeméride materializa-se agora em 2026.

Bateremos palmas eternas para os feitos daquele time de heróis. Jamais nasceu, ou há de nascer, um goleiro mais acrobático do que J. Batista. Nunca houve um zagueiro mais forte, imponente e destemido quanto Setembrino. Somados, Zezé, na ponta direita, e Anacleto, na esquerda, erraram um total de zero cruzamentos não só naquele campeonato, mas em toda a vida, e contando peladas no colégio e futebol de botão. E Puskas, segundo as contas mais confiáveis, marcou, no mínimo, 2 mil gols na carreira, Nenhum deles de pênalti.

Hoje, para celebrar o feito desses imortais, decidi estragar a surpresa e contar que, em breve, eles terão a companhia de outros heróis. Vai ter um tanto de boleiro tatuado, meio com cara de entojado, mas não liguem, não: um pouco disso é marra que pega bem no Instagram, en, e outro tanto é o velho truque de quem fecha a cara e põe óculos escuros para disfarçar a insegurança.

Estarão inseguros, nossos futuros campeões. Afinal, já vai fazer mais de 60 anos que, pela primeira e, até ali, única vez que outras pessoas ergueram, em Lages, a taça de campeão catarinense de futebol. Mas eles transformaram o nervosismo em gasolina, e a gasolina em gol.

Infelizmente, não consegui ver o ano dos acontecimentos deste relato porque me distraí com os marmanjos da arquibancada, esvaindo-se em choro e raiva e alívio, com os velhinhos, que sorriam um sorriso desdentado e balançavam suas bandeirinhas, com as mães emocionadas que se abraçavam com seus pequenos e diziam “daqui a uns anos é você, filho”, com a gurizada que não havia conseguido assistir ao jogo, mas ainda assim pulava o muro para entrar no Tio Vida porque não queria perder a festa.

Como reconheci um mundo de gente na arquibancada e também os ateus da romaria (um deles me deve uns pila, o sacana), chuto que os fatos se deram no horizonte dos próximos dez anos. No máximo.

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