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O legado do maestro Melara

Projeto cataloga 100 canções que representam a obra do músico que atuou por quatro décadas na região de Joinville

Por Marisa Toledo, produtora cultural em Joinville, responsável pela Agência Cultural AqueleTrio

Algumas coisas na vida me movem profundamente. A cultura e o trabalho estão entre elas. Tenho muito prazer e me sinto realizada quando posso deixar minha marca no mundo para aqueles que virão depois de mim. E esse sentimento norteia a maioria das coisas que faço.

Depois de quase 40 anos atuando como pianista, decidi focar em outras áreas da arte. Claro, agora estou fora dos palcos, mas a dedicação continua a mesma. 

Produzir outros grupos musicais, como o “Chá de Cevada” e a “Experimental Big Band”, ou conduzir projetos de pesquisa e registro de fazeres e saberes únicos, como o “Gastronomia Identitária” e a atual catalogação do acervo musical das músicas para coral de Luiz Fernando Melara, são atualmente minhas paixões.

No caso do maestro, o que me atrai não é apenas o registro histórico, mas também a difusão e o reconhecimento da sua trajetória, talvez desconhecida pelos circuitos culturais mais amplos. 

A sistematização da sua obra – tanto dos arranjos quanto das composições próprias – por meio de partituras digitalizadas ou físicas garante que essa produção musical não se perca com o tempo. 

E, ao organizar, preservar e tornar acessível esse trabalho, entendo que estou criando uma base para pesquisadores, intérpretes e educadores explorarem e perpetuarem tal legado.

O maestro Melara, atuante durante quatro décadas em Joinville e região a partir do final dos anos 1970, virou estrela em agosto de 2021, quando a Mariza, sua esposa, e a filha caçula Angela, me entregaram todo o acervo de partituras que foi dele, com mais de 200 obras no total. 

Uma honra, como não canso de dizer. E eu, que fui sua aluna e depois colega de trabalho, acompanhando ao piano os corais da ACE, da Catedral de Joinville e do Circolo Italiano, teria liberdade para fazer uso ou ajudar a multiplicar esse patrimônio entre outras pessoas. 

Em 2021 mesmo, em meio à pandemia e com recursos da Lei Emergencial da Cultura Aldir Blanc, produzimos então o “Libreto de Natal”, em formato on-line, que em 2025 foi revisto e ampliado para publicação em versão impressa, e distribuído aos mais de mil participantes do Festival de Corais Joinville daquele ano.

Agora, em 2026, pudemos cumprir mais uma etapa no mapeamento do seu acervo: com recursos do Primeiro Ciclo da Política Nacional Aldir Blanc em Joinville, conseguimos catalogar 100 canções brasileiras, italianas, inglesas, espanholas, sacras, hinos comemorativos e até uma obra em japonês. 

Essa etapa, iniciada em 2024, agora disponibiliza gratuitamente ao público as partituras editoradas em formato digital com grade geral e das partes, os manuscritos digitalizados do maestro (quando disponíveis), e os áudios das partes corais, como medida de acessibilidade a pessoas que não leem partituras musicais, cegas, com baixa visão, disléxicas ou neurodivergentes diversos.

Penso que iniciativas como essa contribuem para descentralizar a narrativa dominante, frequentemente concentrada em grandes centros ou em nomes já consagrados. 

Ao lançar luz sobre um arranjador e compositor presente em Joinville, amplia-se a compreensão histórica do que constitui a riqueza musical de uma comunidade, no caso, a nossa. 

Trata-se, portanto, de um gesto político e cultural, que reconhece o valor da produção artística nas suas dimensões geográficas, estilísticas e sociais.

O respeito à história da música de um lugar passa, necessariamente, pelo reconhecimento daqueles que a construíram. Luiz Fernando Melara carregou consigo referências culturais, experiências e expressões que refletiram o contexto em que estava inserido. Ignorar essas contribuições é, em certa medida, apagar fragmentos da própria identidade coletiva de Joinville. Valorizar essa história é também fortalecer o senso de pertencimento e continuidade cultural.

O material está disponível em https://shre.ink/melara100.​

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