O estágio do ódio
A psiquiatra suíça Elisabeth Kübler-Ross (1926-2004) elaborou um conceito segundo o qual o luto se desenrola em cinco estágios: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Ela desenvolveu o modelo após entrevistar e observar centenas de pacientes terminais em hospitais de emergência e, nesse trabalho, detectar padrões de comportamento de quem recebe a notícia de que sua própria morte está próxima.
Cada pessoa que ouve a informação de que vai morrer, ou de que, mais dia, menos dia, vai perder uma pessoa muito próxima, reage de um modo muito particular. Há quem se esvaia em prantos, outros esboçam um riso nervoso, e tem os que se calam para conter o nó na garganta.
A manifestação dos sentimentos é diferente para cada pessoa, mas o fato é que a cronologia do luto é mais ou menos a mesma para todo mundo. Primeiro, temos o choque inicial, e, como uma reação de defesa, não acreditamos de imediato no que acabamos de ouvir. Depois, quando já não podemos negar o fato incontornável da morte, sentimos crescer dentro de nós a raiva, o inconformismo, a revolta.
Na fase da barganha, nós “negociamos”, com uma força maior ou com nossa própria dor, um modo de tentar impedir que o fim que nos aguarda se concretize. No estágio seguinte, o da depressão, a solidão e a saudade nos dominam, o que nos debilita, nos prostra, muitas vezes até o limite de nossas forças. E, por fim, chega a aceitação. Nesse estágio, a dor e a saudade ainda povoam nossos dias, mas passamos a encarar esses sentimentos com mais serenidade.
Eu não sei vocês, mas, no meu íntimo, eu já sepultei o Inter de Lages ao menos duas vezes. Em 2009, idealizei e participei da convocação de um ato em frente ao Vermelhão, a antiga sede colorada, para oficialmente comemorar os 60 anos do clube. O que não contei para ninguém é que imaginei que aquele ato seria, também, uma despedida. O Inter estava fora de combate, e nada sugeria que a nossa camisa encarnada voltaria a entrar em campo.
Pouco mais de uma década depois, em 2020, ano de eclosão da pandemia de covid-19, eu tive que pacificar em mim a conclusão de que o Inter não teria forças para continuar a existir. Sem poder receber a torcida no estádio, uma de suas principais fontes de receita, e com enorme dificuldade para atrair patrocínios naquele momento de restrições orçamentárias das empresas e de todo tipo de incertezas, só dava para enxergar diante de nós o fim.
Nessas duas ocasiões, eu realmente vivi o luto, em todos os estágios. Entrei em negação ao saber que a morte era certa, tive raiva, negociei comigo mesmo promessas mil em troca da sobrevida do clube, entrei no quarto escuro da depressão.
Eu disse que passei pelos cinco estágios, mas menti. Secretamente, e sem que eu mesmo percebesse, apenas encenei a aceitação. Vou aceitar a morte de quem, se não estou vendo defunto? Mas, pelo sim, pelo não, acendi vela e segui com minhas pálpebras a meio mastro.
E em 2026? Neste exato instante, reconheço que tenho muita raiva, mas não uma raiva que a tal psiquiatra suíça tivesse identificado em seus estudos, e sim a raiva de torcedor que vê que tem muito clube mequetrefe nos estaduais, que estão em andamento em boa parte do país. Era o Inter para estar em campo agora, e não esse bando de desqualificado.
Mas nós vamos voltar. Nem que seja na força do ódio.


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